Maria Júlia Caixeta e Marco Antônio Medeiros


Há pesquisa, repertório cultural, compreensão do público, domínio técnico, testes e inúmeras decisões estratégicas que fazem do design uma ferramenta de comunicação. A Inteligência Artificial consegue acelerar parte desse processo, mas não substitui a capacidade humana de interpretar contextos e encontrar soluções para problemas específicos.
Essa percepção equivocada, de que criar se resume ao resultado final, tem contribuído para a desvalorização do trabalho do designer. Quanto mais populares e poderosas se tornam as ferramentas de IA, mais se fortalece a ideia de que qualquer pessoa pode produzir peças profissionais em poucos minutos, desconsiderando anos de estudo, prática e aperfeiçoamento.
Para a professora de Design, Sabrina Maia, a discussão sobre o uso da IA ainda está longe de um consenso: "É um termo controverso, tanto entre docentes quanto entre discentes".
Segundo ela, a tecnologia já faz parte da formação dos estudantes, mas seu uso precisa estar acompanhado de responsabilidade e transparência. Ela indica que, se o aluno usar algum tipo de auxílio dessas ferramentas artificiais para pesquisa, processo ou produto, ele deve declarar isso. Mais do que uma recomendação acadêmica, trata-se de uma questão ética, já que a ferramenta participa do desenvolvimento do trabalho.
Na sala de aula, o foco também não está em ensinar apenas uma plataforma específica. Isso porque as ferramentas mudam rapidamente. Enquanto novos programas surgem quase toda semana, os fundamentos do Design permanecem os mesmos. "Hoje temos dezenas de ferramentas específicas, mas focamos em ensinar o pensar design e os processos, onde a IA entra como um encaixe pontual" afirma Sabrina.
Esse ponto revela uma diferença importante entre utilizar Inteligência Artificial e depender dela. Embora a tecnologia seja capaz de sugerir alternativas e acelerar etapas do projeto, ela não substitui o conhecimento de quem compreende o processo criativo. Para a professora, a ferramenta só alcança seu verdadeiro potencial quando está nas mãos de alguém que domina os fundamentos da profissão. Ela destaca que se você sabe fazer sem a IA, você a usará muito melhor.
A própria experiência da docente demonstra como a IA pode ser uma aliada quando utilizada de forma consciente. Ela conta que recorre às ferramentas para tarefas muito específicas, principalmente aquelas repetitivas e operacionais. Um exemplo é a alteração de preços em um catálogo inteiro em PDF, atividade que antes exigia horas de trabalho e hoje pode ser realizada em poucos minutos. Nesse caso, a tecnologia não substitui o designer, mas libera tempo para que ele se dedique às etapas que realmente exigem criatividade e pensamento estratégico.
A facilidade que essas ferramentas disponibilizam, também produz uma falsa sensação de que o processo criativo pode ser automatizado por completo. Para a professora, esse é um dos maiores riscos da popularização das IAs. "A IA encurta caminhos, mas ainda é meio burra em certos momentos", afirma a professora.
Sem direcionamento humano, ela tende a oferecer respostas previsíveis, repetitivas e superficiais, incapazes de compreender as necessidades específicas de cada projeto.
Esse espaço ajuda a explicar por que tantas empresas passaram a enxergar o design apenas como uma etapa operacional. Em um mercado cada vez mais acelerado, a rapidez oferecida pela Inteligência Artificial frequentemente se sobrepõe ao valor do pensamento criativo. O resultado é a consolidação da ideia de que produzir uma identidade visual, uma campanha ou uma peça gráfica é uma tarefa simples e instantânea.
Entretanto, reduzir o design ao clique de um botão significa ignorar tudo aquilo que realmente diferencia o trabalho humano: a sensibilidade, a capacidade crítica, a construção de significado e a criatividade. A tecnologia pode transformar a maneira como os profissionais trabalham, mas ainda depende da inteligência, da experiência e das decisões de quem está por trás dos comandos. É justamente nesse conhecimento invisível que reside o verdadeiro valor do design.
"A IA encurta caminhos, mas ainda é meio burra em certos momentos"
uma ilustração ou até mesmo a identidade visual completa de uma marca. Para quem observa apenas o resultado final, a impressão é de que o design finalmente se tornou uma tarefa simples: basta escrever um comando, aguardar alguns instantes e escolher a imagem mais agradável. Mas essa rapidez esconde uma realidade invisível para grande parte dos usuários dessas ferramentas.
m poucos segundos, uma Inteligência Artificial é capaz de gerar um logotipo,
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Por trás de uma identidade visual, de uma embalagem ou de uma campanha publicitária existe muito mais do que a execução de uma imagem.
A ilusão da facilidade

Usuário gera peça publicitária completa em poucos segundos através de comandos automatizados.
(Foto: Maria Júlia Caixeta)
Algoritmo padroniza, mercado sucateia
e por um lado a automação promete otimizar rotinas operacionais, por outro, a engenharia por trás dos algoritmos abre um complexo debate sobre os limites da tecnologia. Afinal, a inteligência artificial generativa deve ser vista como uma ferramenta de expansão criativa ou como um mecanismo de desvalorização profissional? Para compreender essa disputa, é preciso olhar para a engrenagem matemática que alimenta esses modelos.
Longe de qualquer inspiração genuína, o aprendizado de uma máquina resume-se a cálculos de probabilidade estatística. O especialista e desenvolvedor da área, Fernando Henrique Carvalho explica que, inicialmente, as ferramentas dependem de uma massa de dados monumental, na casa dos zettabytes e milhares de terabytes, para que o sistema consiga prever qual é o próximo pixel mais provável a ser desenhado. Se houver um pixel preto formando uma linha, a matemática calcula a probabilidade do próximo também ser preto.
Esse refinamento matemático foi o responsável pelo salto de qualidade visual dos últimos anos. A evolução técnica transformou uma tecnologia antes rudimentar em um sistema robusto:"Nos modelos iniciais, tínhamos uma qualidade muito ruim de imagem. Lembramos dos primeiros modelos de IA generativa em que o resultado deixava a desejar. Hoje, o sistema realiza um excelente trabalho e entrega imagens muito boas. E aí a realidade atual é outra: antes tínhamos 3 bilhões de parâmetros, agora são 73 bilhões de parâmetros"
Por ser estruturada em cima de médias extraídas de criações alheias, a Inteligência Artificial generativa reacende um debate antigo sobre originalidade e plágio. Do ponto de vista prático de um modelo generativo básico, Fernando é categórico ao afirmar que a tecnologia apenas copia. Ela opera entregando a média do desempenho humano: um resultado que nunca será brilhante ou perfeito, mas que também dificilmente será de todo ruim.
Essa dinâmica de "copiar" e "recombinar" gera defesas por parte dos entusiastas da tecnologia, que argumentam que os seres humanos também criam a partir de referências acumuladas ao longo da vida. O especialista reconhece que existe esse ponto a se pensar, já que todo artista, num primeiro momento, desenvolve seu repertório a partir do que consumiu, vivenciou ou assistiu.
A diferença crucial, contudo, reside na atribuição de agência e responsabilidade. A tendência de personificar o software, tratando-o como um criador autônomo que toma decisões éticas ou estéticas, acaba mascarando os verdadeiros responsáveis pelas violações de propriedade intelectual que ocorrem nesse ecossistema.
A relação entre as gigantes da tecnologia e os direitos dos criadores é marcada por uma zona cinzenta que muitas vezes beira a conivência. Embora as plataformas mais conhecidas tenham implementado filtros para evitar que usuários peçam diretamente criações protegidas por direitos autorais, recusando-se, por exemplo, a desenhar personagens da Disney, o sistema é facilmente burlado.
Fernando explica que, se ninguém colocar uma etiqueta de identificação no sistema dizendo que aquela imagem específica é de propriedade da 'Disney' ou da 'Pixar', a IA inicialmente não saberá fazer essa associação de forma restritiva. Além disso, o mercado paralelo de tecnologia encontrou formas rápidas de quebrar essas barreiras de proteção.
Se você pedir diretamente para o ChatGPT desenhar o Pato Donald, ele recusará o comando para evitar processos. No entanto, Fernando revela que já existem ferramentas intermediárias que reescrevem as instruções de forma puramente descritiva, fazendo com que a IA gere exatamente o personagem protegido sem acionar os filtros de segurança.
Para ele, essa facilidade em contornar as restrições revela uma postura negligente das Big Techs em relação aos criadores de conteúdo independentes. Há uma clara má vontade das empresas, movida pelo pensamento de que proteger esses direitos dá muito trabalho e não gera retorno financeiro para elas. O foco dessas corporações não está em poupar o ilustrador local que tenta garantir o sustento com seus desenhos."Eles conseguem identificar alguns direitos autorais, sim. Eu acho que é um pouco de má vontade, o famoso, ah, é muito trabalho e a gente não ganha nada com isso. Quem se importa e reconhece o trabalho do Carlos, o ilustrador lá do Brasil, sabe, que está fazendo os desenhos dele.", critica o entrevistado.
Nesse cenário de transição acelerada, a Inteligência Artificial assume uma dupla identidade no mercado de trabalho: apresenta-se como uma força democratizadora para pequenos negócios, ao mesmo tempo em que atua como uma ferramenta de precarização para os profissionais da área criativa.
Pelo lado da democratização, a tecnologia abriu portas para quem antes estava completamente excluído do mercado de design. “A IA cria a possibilidade de algumas pessoas que não tinham acesso a esse tipo de serviço conseguirem criar alguma coisa", pondera Fernando. "Se eu tenho um salão de cabeleireiro minúsculo ou uma loja de doces num marketplace e faturamento de dois mil reais por mês, eu não tenho condições de pagar três mil reais para um designer fazer minha identidade visual. A IA permite que essa pessoa crie um logo legal.”
No entanto, essa mesma facilidade de acesso gerou um efeito colateral devastador para os profissionais que dependem da criação para sobreviver. A automação indiscriminada passou a ser utilizada por empresas de médio e grande porte como pretexto para baratear orçamentos e acelerar a produção. O especialista compara: "O ChatGPT virou o novo 'tenho um primo que faz mais barato’".
Ele relata a frustração de designers que apresentam propostas completas de branding por cinco mil reais, envolvendo pesquisa, estratégia e conceito, e ouvem de clientes que o ChatGPT faz tudo de graça, sugerindo que o profissional deveria cobrar apenas duzentos reais pelo serviço. Essa percepção distorcida ignora as décadas de estudo e a bagagem conceitual necessárias para construir uma marca verdadeiramente estratégica.
Esse achatamento de valores é acompanhado pela extinção progressiva de postos de trabalho operacionais, que historicamente serviam como porta de entrada para jovens profissionais no mercado criativo. Fernando aponta que setores inteiros estão sofrendo cortes severos. Áreas como a dublagem enfrentam crises profundas, e funções como a transcrição de áudio e a legendagem simples foram quase completamente varridas do mapa pela automação corporativa, extinguindo bicos que antes garantiam a renda de muitos estudantes em início de carreira.
A Inteligência Artificial generativa, portanto, não se apresenta como uma ameaça futurista ou abstrata, mas como uma força econômica ativa que já remodela as relações de trabalho no presente. Ao mesmo tempo em que oferece atalhos valiosos e democratiza o básico, também impõe um custo invisível sobre a subsistência dos criadores. Cabe ao setor criativo definirem onde termina o suporte da máquina e onde começa a salvaguarda do intelecto humano.
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Processo de criação de marca e manual de identidade visual executado por inteligência artificial generativa. (Foto: Marco Antônio Medeiros)
Resposta de Fernando para a pergunta: "Onde termina o aprendizado da máquina e começa a cópia (ou violação de autoria)?"
"O ChatGPT virou o novo 'tenho um primo que faz mais barato’".
O relato de quem vive da criação
ara quem trabalha diariamente com design, a Inteligência Artificial já deixou de ser uma novidade e passou a se tornar parte da rotina. Distante da ideia de que a tecnologia substitui completamente o profissional criativo, a realidade é mais complexa, ela acelera processos, reduz etapas e ajuda a cumprir prazos, mas também muda o mercado de trabalho e muda a forma como a criatividade é vista e valorizada.
Essa é a realidade vivida pelo designer gráfico Miguel Medeiros, que atua na produção de conteúdos para diferentes clientes. Segundo ele, o ritmo acelerado das entregas faz com que o tempo dedicado à construção de cada projeto seja cada vez menor. Ele afirma:"Por ter uma demanda muito grande, o tempo para fazer cada trabalho acaba sendo reduzido. Também depende de como eu recebo, porque eu recebo por trabalho feito. Então, a inteligência artificial tem dado alguns atalhos para isso."
Dentro da prática, a IA passou a ocupar um espaço de atalho dentro do seu fluxo de produção. Antes mesmo de iniciar a criação de uma imagem gráfica, Miguel utiliza a tecnologia para organizar as informações enviadas pelos clientes. Em vez de ouvir diversas vezes um áudio longo ou interpretar mensagens desorganizadas, ele pede que a ferramenta sintetize o conteúdo em tópicos, tornando o processo mais rápido e eficiente. A primeira coisa é estruturar o que a pessoa quer dizer. Nessa parte de texto ele já usa inteligência artificial para resumir e organizar em tópicos. Às vezes o cliente manda um áudio de três minutos, e ela cria os tópicos para que assim ele consiga compreender mais rápido.
A ferramenta também é utilizada como uma fonte de inspiração para os designers. Quando precisa desenvolver uma campanha e não encontra referências suficientes, Miguel recorre à IA para gerar sugestões iniciais de composição visual. Quando ele precisa de uma ideia para uma arte, ele apenas pede para a IA dar, por exemplo: seis sugestões. E ao não especificar muito, a ferramenta acaba gerando uma arte mais genérica, que é aquele tipo de imagem feita por inteligência artificial.
Nem sempre essas imagens chegam ao resultado esperado. Em clínicas de estética, por exemplo, Miguel evita utilizar imagens produzidas integralmente por IA. Para ele, nesses casos, a percepção de qualidade ainda está associada às fotografias reais. "Para esse tipo de cliente, uma imagem feita por inteligência artificial é vista como uma imagem empobrecida, com pouco valor."
Se por um lado a Inteligência Artificial reduz etapas do trabalho, por outro ela também tira parte das demandas destinadas aos designers. Miguel conta que tarefas consideradas mais simples não chegam até ele, pois passaram a ser realizadas diretamente por outros profissionais utilizando plataformas de IA. "A agência parou de me enviar algumas demandas que eles mesmos conseguem desenvolver usando inteligência artificial, sem precisar de um designer."
Apesar de todas essas mudanças, ele afirma que sua motivação no trabalho continua a mesma. Na visão dele, o design não deve ser entendido apenas como expressão artística, mas como uma atividade voltada à resolução de problemas e à comunicação."O design é uma arte aplicada. Eu pego o conhecimento e as técnicas da arte e emprego para cumprir uma função. Estou servindo o cliente. Se ele gostou e eu achei feio, tudo bem. O importante é atender ao objetivo."
O avanço da Inteligência Artificial também trouxe novas exigências para quem trabalha no mercado de design. Além de ter conhecimento de softwares tradicionais de edição, os profissionais passaram a precisar conhecer plataformas de IA, que hoje aparecem como requisito em muitas vagas de emprego. Para Miguel, essa adaptação também representa um investimento financeiro, já que grande parte das ferramentas mais completas funciona por meio de assinaturas pagas.
Na visão do designer, as mudanças são mais visíveis nas pequenas empresas. Atividades que antes eram distribuídas entre diferentes funcionários, passaram a ser concentradas em um único funcionário, que utiliza a Inteligência Artificial para produzir textos, imagens e trabalhos gráficos. Em empresas maiores, no entanto, Miguel acredita que a realidade é diferente: a tecnologia tem sido usada como um recurso para agilizar os processos de criação, sem eliminar a necessidade de um profissional adequadamente qualificado.
Apesar de reconhecer os benefícios da IA para acelerar o trabalho, Miguel defende que o avanço dessas ferramentas precisa vir acompanhado de discussões sobre regulamentação e direitos autorais. Para ele, ainda faltam mecanismos que garantam o reconhecimento da autoria humana e ofereçam mais segurança aos profissionais do ramo criativo."Tem que existir algum mecanismo para garantir o que foi feito por humanos e proteger os nossos direitos. Seria bom ter um selo indicando que aquele trabalho foi feito por uma pessoa."
A experiência do designer demonstra que a Inteligência Artificial não eliminou a profissão, mas transformou profundamente suas exigências. Hoje em dia, além de criar, o profissional precisa aprender os mecanismos de uso dessas novas tecnologias, se adaptar às mudanças do mercado e, ao mesmo tempo, defender o valor da criatividade humana em um mundo em que a velocidade e automação passaram a guiar o ritmo da alta demanda de produções.
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O cotidiano dos profissionais da criação exige sensibilidade técnica diante de um mercado em transformação rápida. (Foto: Marco Antônio Medeiros)
"O design é uma arte aplicada. Eu pego o conhecimento e as técnicas da arte e emprego para cumprir uma função. Estou servindo o cliente. Se ele gostou e eu achei feio, tudo bem. O importante é atender ao objetivo."
Direitos autorais e o amparo legal ao criador
Se para designers e ilustradores a Inteligência Artificial já mudou a rotina de trabalho, no campo jurídico ela também abriu uma série de dúvidas que ainda não têm respostas definitivas. Afinal, quem é responsável quando uma IA utiliza obras de artistas para aprender? E, principalmente, quem protege esses criadores?
Embora o Brasil tenha uma Lei de Direitos Autorais, ela foi criada em 1998, muito antes da chegada das inteligências artificiais generativas. Na época, não se imaginava que sistemas seriam treinados com bilhões de textos, fotografias, ilustrações, músicas e outras obras para produzir novos conteúdos em poucos segundos.
Para a professora de Direito e advogada especialista em Direito Digital, Naiara Aparecida Lima Vilela, é justamente aí que está o principal problema. "Estamos diante de uma tecnologia nova sendo interpretada a partir de uma lei pensada para outro contexto histórico."
Hoje, a legislação protege as obras intelectuais e determina que sua reprodução ou exploração econômica depende, em regra, da autorização do autor. No entanto, o treinamento das inteligências artificiais não se encaixa perfeitamente nessas regras. Como os modelos apenas analisam grandes volumes de dados para reconhecer padrões, ainda não existe consenso sobre como esse processo deve ser tratado pela lei.

Códigos jurídicos e livros de Direito Civil; o avanço de ferramentas generativas desafia a legislação tradicional a proteger a autoria e os direitos autorais dos criadores. (Foto: Marco Antônio Medeiros)
"É preciso permitir inovação tecnológica, mas sem transformar a produção intelectual humana em matéria-prima gratuita para modelos de negócio altamente lucrativos."
Mesmo assim, Naiara explica que existe um forte argumento jurídico quando empresas utilizam obras protegidas sem autorização, transparência ou qualquer tipo de compensação financeira aos autores. "A obra humana passa a funcionar como insumo econômico para o desenvolvimento de uma tecnologia que pode gerar lucro, substituir mercados criativos e produzir conteúdos concorrentes com aqueles elaborados por artistas, escritores, jornalistas, músicos e demais criadores."
Na prática, isso significa que milhares de produções feitas por pessoas podem servir de base para sistemas que, depois, passam a competir justamente com esses profissionais. É um cenário que ainda não foi regulado pela legislação brasileira, criando uma zona de incerteza tanto para os criadores quanto para as empresas responsáveis pelas ferramentas.
Mas, e quando um artista identifica que seu trabalho foi usado de forma indevida?
Segundo a advogada, antes de qualquer tentativa de remover o conteúdo da internet, o mais importante é guardar provas. "A primeira providência é preservar as provas antes de qualquer tentativa de remoção ou alteração do conteúdo."
Capturas de tela, links, datas de publicação, arquivos originais e outros registros ajudam a comprovar a autoria e fortalecem uma eventual ação judicial. Depois disso, o autor pode notificar a plataforma ou o responsável pela publicação para pedir a retirada do conteúdo, o reconhecimento da autoria ou até uma indenização, caso exista exploração comercial da obra.
Outro ponto importante é que nem toda imagem parecida caracteriza plágio. O Direito Autoral não protege um estilo artístico, mas sim a forma concreta como aquela obra foi criada. Ainda assim, quando uma imagem gerada por IA reproduz elementos claramente identificáveis de uma criação original, a discussão jurídica ganha força.
Os primeiros processos envolvendo Inteligência Artificial já começam a chegar aos tribunais brasileiros. Um dos exemplos citados por Naiara é a ação movida pela Folha de S.Paulo contra a OpenAI, que questiona o suposto uso de reportagens para o treinamento do ChatGPT. Outro caso envolve a execução pública de músicas geradas por IA e a cobrança de direitos autorais pelo ECAD. Ainda não existe uma posição definitiva da Justiça, mas esses processos indicam que o tema deve ocupar cada vez mais espaço nos tribunais.
Para a especialista, o caminho passa pela atualização da legislação. Ela defende regras que obriguem empresas de IA a serem mais transparentes sobre quais obras utilizam no treinamento de seus modelos, além da criação de mecanismos de remuneração e proteção aos autores. "É preciso permitir inovação tecnológica, mas sem transformar a produção intelectual humana em matéria-prima gratuita para modelos de negócio altamente lucrativos."
Enquanto essas mudanças não acontecem, designers, ilustradores e outros profissionais criativos seguem trabalhando em um cenário de incertezas. A tecnologia continua avançando em ritmo acelerado, mas a legislação ainda tenta acompanhar seus impactos. No fim das contas, o maior desafio não é impedir a inovação, e sim garantir que ela aconteça sem apagar o valor de quem cria.
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ara entender como os consumidores percebem o avanço da Inteligência Artificial na criação de conteúdos visuais, esta reportagem realizou uma sondagem com respostas anonimizadas intitulada “O avanço da IA no design sob a ótica do público”. A partir de uma amostragem de 76 respondentes, distribuída majoritariamente entre as faixas de 18 a 20 anos (31,6%), 21 a 25 anos (27,6%) e de 30 anos ou mais (35,5%), os resultados revelam um paradoxo de mercado: enquanto empresas correm para cortar custos com ferramentas generativas, o público consumidor demonstra forte resistência ética, estética e financeira a essa substituição.
A primeira provocação que a sondagem colocou à prova foi a suposta invisibilidade das produções algorítmicas: "Você costuma perceber quando uma imagem, ilustração ou propaganda na internet foi gerada por Inteligência Artificial?". As respostas a esse questionamento confrontam diretamente a premissa de que o público consome conteúdos automatizados de forma passiva ou desatenta.
A maioria absoluta dos entrevistados, 68,4% afirmou que sempre percebe a interferência sintética com facilidade. Outros 28,9% declararam notar essa origem de forma condicional, apenas quando há erros evidentes, como mãos deformadas ou textos distorcidos. Por fim, uma minoria expressiva de apenas duas pessoas respondeu que raramente ou nunca nota a diferença.
Esses dados evidenciam que a substituição do trabalho humano gera um ruído estético nítido. Longe de se mostrar indiferente, o público desenvolveu um repertório crítico refinado, o que acentua a relevância do acabamento técnico e da revisão humana. Ao contrapor o discurso empresarial de que os algoritmos já alcançaram o nível dos profissionais de criação, os dados consolidados no gráfico abaixo fornecem sustentação à permanência indispensável dos designers no ecossistema digital.

O avanço da IA no design sob a ótica do público
A sondagem também avaliou a percepção de qualidade do público com a seguinte pergunta: "Como você avalia a qualidade visual das imagens geradas por IA em comparação com o trabalho de um designer humano?". Os resultados mostram uma preferência clara pelo trabalho profissional em detrimento do automatizado.
A grande maioria dos participantes, totalizando 58 respostas (76,3%), afirmou que o designer humano produz trabalhos superiores, justificando que o resultado tem mais personalidade e se adapta melhor ao contexto de cada projeto. Já as opções que colocam a IA no mesmo nível ou acima do trabalho humano receberam poucos votos: foram apenas 11 respostas (14,5%) para qualidade igual e 7 (9,2%) para a superioridade da inteligência artificial.
Esses dados reforçam a diferença prática entre o conteúdo gerado por computador e a criação de uma identidade visual por profissionais. Enquanto a máquina combina padrões e arquivos que já existem na internet, o designer trabalha com estratégia, técnica e foco nas necessidades do cliente. No fim, as respostas revelam que o consumidor percebe quando falta originalidade e intenção ao conteúdo, valorizando o papel do profissional no mercado digital.
Ademais, o levantamento mediu o impacto comercial e de reputação que a escolha do uso de Inteligência Artificial para criação de designs pode trazer para os negócios, propondo o seguinte cenário: "Se você descobrisse que a sua marca ou empresa favorita demitiu sua equipe de designers para usar apenas imagens geradas por IA, como isso afetaria a sua visão sobre a marca?". As respostas acendem um alerta para os departamentos de marketing e direções de empresas.
Para a grande maioria dos entrevistados, 84,2%, a opinião sobre a empresa pioraria imediatamente. O público justificou que esse tipo de atitude transmite a imagem de uma corporação que não valoriza o trabalho humano e prioriza apenas o corte de despesas a qualquer custo. Em contrapartida, a indiferença foi a resposta de 13,2% dos participantes, que afirmaram focar apenas no produto final, sem se importarem com os bastidores da produção. Por fim, uma parcela mínima de 2,6% enxergaria a mudança como algo positivo, associando-a a modernidade e inovação tecnológica.
Os resultados que a sondagem traz dão uma dimensão exata do que se pode chamar de "O custo artificial". A substituição completa de profissionais por softwares pode até gerar uma economia financeira rápida nas planilhas do fim do mês, mas o preço pago com alguma ranhura na reputação da marca é alto e difícil de reverter. Hoje, o ato de consumir vai além de simplesmente comprar um produto; ele envolve identificação com os valores da empresa. Quando uma marca decide cortar sua equipe de criação para usar robôs, ela quebra um pacto de empatia com o seu público. Em vez de parecer inovadora, a empresa corre o risco de parecer fria, gananciosa e distante da realidade social.
Além disso, a rejeição de mais de 80% dos respondentes aponta para um perigo comercial claro: a perda de lealdade. Em um mercado em que os consumidores têm dezenas de opções parecidas à disposição, a conexão emocional é o principal diferencial de uma marca. Ao eliminar a criação por humanos na proposição da comunicação visual, a empresa não perde apenas a qualidade estética; ela perde a capacidade de conversar de verdade com as pessoas. A pressa em adotar a inteligência artificial para eliminar salários pode, na verdade, afastar os clientes mais fiéis, que passam a ver a corporação como uma organização que não se importa com o mercado de trabalho.
A sondagem fecha tocando no ponto mais sensível para a sobrevivência de qualquer negócio: o bolso. A pesquisa testou a disposição financeira do público com a pergunta: "Você estaria disposto a pagar o mesmo valor por um produto cujo design (embalagem, site, identidade visual) foi feito inteiramente por um robô/algoritmo, sem nenhuma intervenção criativa humana?". O resultado mexe diretamente com a estratégia de preços do mercado.
Mais da metade dos entrevistados, 55,3% respondeu um "não" definitivo, afirmando que o produto perde valor se não houver esforço humano e autoral envolvido. Outros 36,8% pagariam o mesmo preço, mas apenas se o resultado final entregasse uma qualidade igual ou superior. Por fim, uma minoria de 7,9% se mostrou indiferente ao processo de criação.
Esses dados dão um aviso sobre a ilusão do lucro fácil com a IA. Muitas empresas acreditam que usar robôs vai manter o preço do produto final igual enquanto a margem de lucro explode. A sondagem, porém, mostra o oposto: quando o consumidor descobre que o design foi gerado por um comando rápido de computador, ele rebaixa na hora o quanto aceita pagar por aquilo.
Se tudo passa a ser feito por algoritmos, o design deixa de ser um diferencial competitivo e vira um produto genérico, onde todos parecem iguais e o único critério de escolha que sobra é o preço mais baixo.
A não disposição (ou recusa) de mais da metade dos participantes em pagar o mesmo valor revela, a partir de uma abordagem interpretativa, o esvaziamento desta lógica de mercado o público associa o preço de um produto ao tempo, ao estudo e à bagagem cultural investidos pelo profissional para criá-lo. A automação sem critérios elimina esse "lastro". Sem a assinatura de um designer, a percepção de exclusividade desaparece, e o cliente sente que está pagando preço de grife em um produto de linha de montagem. No fim das contas, está implícito nas respostas que a presença humana na criação é o que garante que uma marca continue tendo poder para cobrar o que cobra.



O futuro criativo
ncontrar a saída para o impasse gerado pelas IAs generativas exige olhar além da tela do computador. A solução para que a IA seja uma aliada, e não uma ameaça, depende de quem está atrás dos comandos: profissionais conscientes que usam a automação para ganhar tempo, mas preservam a assinatura de seu próprio repertório cultural. O futuro da criatividade exige essa simbiose inteligente e regulamentada.
Para entender como aplicar essas soluções na prática e o que esperar dos próximos anos de IA, ouça o episódio de nosso podcast no player a seguir, que encerra essa reportagem, sugerindo aspectos propositivos.
E
Se a maior parte da produção criativa passar a ser feita por Inteligência Artificial, o que acontece com o trabalho e a valorização dos designers?
Nesse episódio do Além do Prompt, colocamos a máquina
e o humano frente a frente para debater o futuro do
mercado criativo. E no final, apontamos três caminhos
práticos para você dominar a tecnologia antes que
ela domine o seu fluxo de trabalho. Dê o play!